Comecei a sentir dores de cabeça. Nada grave, pensei. Estresse de passar tanto tempo no hospital.
Depois veio a febre. Baixa no começo.
As enfermeiras me davam dipirona e diziam pra eu descansar.
— Você está exausta, Ana — dizia Lucas. — Dorme em casa hoje. Por favor.
— Estou bem — mentia. — Só um pouco cansada.
Mas não era só cansaço.
Uma manhã acordei na poltrona ao lado da cama dele e não conseguia respirar direito. Tossia sem parar.
Lucas chamou a enfermeira imediatamente.
Fizeram exames. Raio-X. Mais testes.
— Pneumonia — disse o médico. — Provavelmente bacteriana. Você passa tempo demais aqui, seu sistema imunológico está baixo por estresse e falta de sono. Vamos te internar para tratar.
Lucas ficou arrasado.
— A culpa é minha — repetia sem parar. — Você ficou doente por minha causa.
— Não fala besteira — disse, quase sem voz. — É só uma pneumonia. Vou ficar bem.
Me colocaram em outro quarto, mas Lucas sempre dava um jeito de aparecer.
Arrastava o suporte do soro pelo corredor, ignorando as broncas das enfermeiras.
— Era pra ser eu cuidando de você — dizia, sentando na mesma cadeira onde eu passei semanas.
— Revezamento — sorri fraco. — Agora é sua vez.
Os antibióticos não estavam funcionando como deveriam.
A febre subia.
A pneumonia piorava.
Os médicos trocaram a medicação.
Depois outra.
Depois mais uma.
— É resistente — ouvi dizerem à minha mãe. — Estamos tentando opções mais agressivas.
Lucas parou de dormir.
Ia do meu quarto ao dele o tempo todo.
A mãe dele me contou depois que ele parou de comer.
Que só repetia: “Ela não pode morrer por minha culpa. Ela não pode morrer por minha culpa.”
Na quinta semana, enquanto Lucas melhorava, eu piorava.
Meus pulmões se enchiam de líquido.
Respirar era como tentar puxar ar por um canudo.
Colocaram oxigênio.
Depois, um respirador.
A última vez que consegui falar com clareza, Lucas estava ao lado da minha cama, chorando como uma criança.
— Não vai embora, Ana. Por favor, não vai. Era pra ser eu. Era eu que ia morrer, não você. Você é a forte. Você é quem salva as pessoas, não quem vai embora. Por favor.
Quis dizer tantas coisas.
Que não era culpa dele.
Que aquele tinha sido o melhor mês da minha vida.
Que, se eu tivesse que escolher, escolheria ele de novo, mil vezes, mesmo sabendo como terminaria.
Mas só consegui apertar a mão dele.
— Eu te amo — sussurrei.
— Eu também te amo — ele chorou. — Não é justo. A gente devia ter saído daqui junto. A gente devia ter tido nosso primeiro encontro sem cheiro de desinfetante.
— Me leva… — mal consegui falar — …pra esse encontro… quando você sonhar comigo.
Naquela noite, entrei em parada respiratória.
Os médicos fizeram tudo o que puderam.
Lucas gritava do quarto dele.
A mãe dele teve que segurá-lo para que ele não arrancasse os próprios tubos tentando chegar até mim.
Morri às 4h37 da madrugada.
Sepse causada por uma bactéria hospitalar resistente.
Irônico, não é?
Vim cuidar de alguém que estava morrendo e o hospital me matou.
Lucas saiu do hospital três semanas depois.
Andando.
Vivo.
Em remissão.
Leave a Comment