Nós nos apaixonamos no hospital… só um de nós saiu andando.

Nós nos apaixonamos no hospital… só um de nós saiu andando.

— Bom, parece que vou ficar por aqui mais um tempo. E você, quando vai embora?
— Recebo alta amanhã — respondi com um nó na garganta.
— Que pena. Justo quando eu estava começando a gostar de você.

Eu fiquei.

Não sei como convenci os médicos, mas prolonguei minha internação fingindo tonturas. Depois virei “amiga da família” durante as visitas. E, por fim, simplesmente parei de ir embora.

Lucas começou a quimioterapia no terceiro dia.
Eu estava lá quando ele vomitou pela primeira vez.
Quando caiu o primeiro tufo de cabelo.
Quando chorou às três da manhã dizendo que não queria que a mãe o visse daquele jeito.

— Você não precisa ficar — ele dizia. — Isso não é problema seu.
— Você não é um problema, Lucas.

Passamos um mês inteiro ali.
Trinta dias de roupas de hospital, café horrível da máquina do corredor e conversas que pessoas normais levam anos para ter.

Ele me contou da ex-namorada que o deixou quando soube do diagnóstico.
Eu contei do meu pai, que morreu quando eu tinha doze anos.
Ele me ensinou a desenhar em guardanapos do hospital.
Eu lia livros em voz alta quando ele estava fraco demais para segurar.

Na segunda semana, ele me beijou.
Foi depois de uma sessão especialmente pesada. Eu limpava a testa dele com um pano úmido quando ele segurou minha mão e disse:

— Se eu for morrer, quero ter morrido depois de beijar alguém que realmente importa pra mim.
— Você não vai morrer — sussurrei.
— Então me beija pra comemorar.

E eu beijei.

Na terceira semana, já éramos inseparáveis.
As enfermeiras nos chamavam de “o casal do quarto 408”.
A mãe dele me abraçava e dizia: “Obrigada por dar motivos pra ele sorrir”.
Eu dormia na poltrona reclinável ao lado da cama dele, segurando sua mão.

— Sabe o que é mais irônico? — ele me disse certa noite. — Passei meses me sentindo morto por dentro e precisei vir pra um hospital pra me sentir vivo.
— Eu vivi anos no piloto automático — confessei. — E precisei conhecer alguém doente pra lembrar o que é viver de verdade.
— A gente é um desastre — ele riu, fraco.
— O melhor desastre.

Na quarta semana, vieram os resultados.
O tumor tinha diminuído 30%. Não era um milagre, mas era esperança.
Os médicos falavam em continuar o tratamento.
A família respirou aliviada.

Eu também.
Mas algo não estava bem comigo.

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