Cheguei à emergência numa terça-feira à tarde depois de desmaiar no trabalho.
Anemia, disseram.
“Precisa comer mais alimentos ricos em ferro e descansar”, receitaram, como se fosse tão simples assim.
Me deixaram em observação por precaução.
Ele chegou naquela mesma noite, empurrado numa maca, pálido como papel, com uma tosse que soava como despedida.
— Primeira vez? — perguntou da cama ao lado, separados apenas por uma cortina azul já desbotada.
— No hospital? Sim. E você?
— Veterano — sorriu fraco. — Estou fazendo exames há três semanas. Hoje saem os resultados.
Não sei por quê, mas algo na voz dele me fez querer ficar acordada ali com ele. Conversamos a noite inteira.
Ele me contou que se chamava Lucas, que tinha 32 anos, que era designer gráfico e que o maior medo dele não era morrer, mas não ter vivido o suficiente.
— E qual é o seu maior medo? — perguntou.
— Viver pela metade — respondi sem pensar. — Fazer tudo por obrigação e nada por paixão.
— Então já temos algo em comum — sorriu.
No dia seguinte, o médico chegou com a notícia.
Câncer de pulmão. Estágio avançado. Tratamento agressivo imediato.
Vi o olhar dele se apagar por dois segundos. Só dois.
Depois ele me olhou e disse:
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