Era um movimento calculado.
Naquela semana ele começou a agir diferente.
Chegava mais tarde.
Sorria ao olhar o celular.
Passou a cuidar mais das roupas.
Eu não disse nada.
Observei.
Uma noite deixou o computador aberto no escritório. Não estava procurando nada… mas a tela acesa chamou minha atenção.
Havia uma planilha aberta.
Meu nome na primeira coluna.
“Despesas que ela assume.”
Rolei para baixo.
Aluguel estimado.
Contas.
Comida.
Plano de saúde.
O total era impossível para alguém que estava há uma década fora do mercado de trabalho.
E abaixo, uma nota.
“Se não puder pagar, vai embora.”
Vai embora.
Fiquei olhando a tela por um longo tempo.
Então vi algo mais.
Uma segunda aba.
“Novo orçamento.”
Abri.
Havia outro nome no topo.
Não era o meu.
Era o nome de uma mulher que eu não conhecia.
E ao lado daquele nome… o mesmo prédio onde morávamos.
Mesmo edifício.
Outro apartamento.
Outro plano.
Senti o ar faltar.
Não era uma discussão sobre dinheiro.
Era uma saída programada.
Para mim.
Naquela noite, quando ele se sentou na cama diante de mim, falou com uma calma que gelou minha pele.
— Eu preciso de uma parceira, não de um peso.
Olhei fixamente para ele.
— Desde quando eu sou um peso?
Ele não respondeu diretamente.
— Só estou dizendo que quero uma mulher que esteja no meu nível.
No meu nível.
Dez anos atrás, quando ele estava começando e eu ganhava mais do que ele, esse “nível” não era um problema.
Mas não discuti.
Assenti.
— Está bem — eu disse.
Ele pareceu surpreso.
— Está bem?
— Vamos dividir tudo.
Pela primeira vez naquela noite, ele hesitou.
— Tem certeza?
Sorri.
— Claro. Mas então dividimos tudo.
A casa.
Os investimentos.
Leave a Comment