As contas que abrimos juntos.
A empresa que você registrou enquanto eu assinava como avalista sem receber um centavo.
A expressão dele mudou.
Levemente.
Quase imperceptível.
Mas eu vi.
Medo.
Porque o que ele parecia esquecer… é que durante dez anos fui eu quem administrou cada papel que entrava e saía desta casa.
Eu sabia exatamente onde estava cada contrato.
Cada transferência.
Cada assinatura.
E havia algo que ele não sabia.
Algo que ele assinou anos atrás, quando ainda dizia que eu era “a melhor decisão da vida dele”.
Algo que, se decidíssemos dividir tudo em partes iguais…
Não o deixaria em vantagem.
Naquela noite ele dormiu tranquilo.
Eu não.
Levantei em silêncio, abri o cofre do escritório e tirei uma pasta azul que não tocava havia muito tempo.
Abri.
Reli a cláusula.
E pela primeira vez em dez anos…
Sorri.
Porque se ele queria dividir as contas…
Talvez estivesse prestes a dividir muito mais do que imaginava.
Na manhã seguinte preparei o café da manhã como sempre.
Café sem açúcar. Pão na chapa levemente dourado. Suco do jeito exato que ele gostava.
Dez anos ensinam rotinas que o corpo repete mesmo quando o coração já não quer.
Ele desceu com aquela segurança nova, quase arrogante.
— Estive pensando — disse enquanto olhava o celular — Podemos fazer um documento formal. Para deixar claro o cinquenta e cinquenta.
— Perfeito — respondi sem levantar os olhos.
Meu tom o surpreendeu. Não havia lágrimas. Nem reclamações.
Isso o desconcertava mais do que qualquer discussão.
Durante o dia fiz três ligações.
A primeira para um advogado que eu não via há anos.
A segunda para o contador da nossa empresa.
A terceira para o banco.
Não falei em divórcio.
Falei em revisão patrimonial.
Porque dividir tudo significava abrir tudo.
E abrir tudo significava expor coisas que ele preferia manter fechadas.
Naquela noite o esperei na sala de jantar.
Não com o jantar.
Com a pasta azul sobre a mesa.
Ele entrou, deixou as chaves e me olhou.
— O que é isso?
— Nossa divisão — respondi com tranquilidade.
Sentou-se à minha frente com um sorriso confiante.
— Ótimo. Gosto quando somos adultos.
Abri a pasta e deslizei o primeiro documento.
— Cláusula décima do acordo societário, assinado há oito anos quando você registrou a empresa.
Ele franziu a testa.
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