Vivo.
Enrolado como ela o deixara, com os olhos abertos — negros como a noite — olhando para ela sem chorar. Como se estivesse esperando.
Benedita caiu de joelhos.
— Me perdoa… me perdoa…
Pegou-o nos braços. Estava quente, fraco, mas respirava.
O peito de Benedita se encheu de um calor desconhecido.
Naquele instante, ela entendeu: não havia mais volta.
Ela não o deixaria morrer.
Durante semanas, Benedita viveu entre dois mundos.
De dia, era a escrava obediente.
De noite, a mãe clandestina.
Escondeu o menino na tapera. Roubava comida, leite, panos. Aprendeu a andar sem deixar rastros. Cantava baixinho cantigas que sua mãe lhe ensinara na África — palavras antigas, proibidas.
Chamou-o de Mateus.
— Nome de homem forte — dizia. — Nome de quem sobrevive.
Mas segredos nunca duram para sempre.
Certa manhã, um menino escravizado seguiu Benedita por curiosidade. Viu quando ela entrou no mato. Viu a fumaça. Ouviu o choro.
Correu para contar.
O feitor não demorou.
Vieram com tochas e cães. Benedita amamentava Mateus quando ouviu os latidos.
Ela não fugiu.
Sabia que não podia.
Saiu da tapera com o menino nos braços.
O feitor ficou imóvel ao vê-la.
— Que é isso?
— Um menino — respondeu Benedita, firme. — Um filho.
O coronel Tertuliano Cavalcante foi chamado imediatamente.
Quando chegou e viu o bebê, seu rosto se desfez. Aproximou-se devagar. Observou a pele, os olhos.
A verdade se ergueu diante dele como um espelho.
— Esse… esse menino… — balbuciou.
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