Mandou a escrava desaparecer com o que nasceu mais escuro… “Pode sumir com ele. Eu pari, mas ele não é meu filho.”

Mandou a escrava desaparecer com o que nasceu mais escuro… “Pode sumir com ele. Eu pari, mas ele não é meu filho.”

Benedita o encarou pela primeira vez sem baixar a cabeça.

— É seu filho, meu senhor.

Um murmúrio percorreu os presentes.

O coronel levantou a mão.

— Silêncio!

Olhou para o menino. Depois para Benedita.

— Esse menino não existe — disse. — E você desobedeceu uma ordem direta.

Sacou a pistola.

Amélia surgiu atrás dele, pálida como um fantasma.

— Não! — gritou. — Não o mate!

Todos se viraram.

— É sangue seu, Tertuliano — disse ela, chorando. — Mesmo que me envergonhe… é seu sangue.

O coronel tremia.

Os cães latiam. O céu ribombou com um trovão.

Então aconteceu o inesperado.

Mateus chorou.

Um choro forte, cheio de vida.

Aquele som quebrou algo antigo no peito do coronel.
Ele abaixou a arma.

— Levem-no — ordenou. — Pra longe. Que eu nunca mais o veja.

Benedita apertou o menino contra o corpo.

— Se ele vai, eu vou com ele.

O coronel a olhou com desprezo.

— Então suma. Você não existe mais pra esta fazenda.

E assim foi.

Anos depois, a fazenda Santa Eulália entrou em decadência. O café perdeu valor. Escravizados fugiram. A doença alcançou os Cavalcante.

Dizem que o coronel morreu sozinho, delirando, chamando por um filho que nunca reconheceu.

Benedita e Mateus viveram num quilombo, entre gente livre. Mateus cresceu forte, de pele escura e olhar atento. Aprendeu a ler, a plantar, a resistir.

Quando Benedita morreu, velha e cansada, Mateus enterrou seu corpo sob uma grande árvore.

— A senhora me pariu duas vezes — disse. — Uma no sangue, outra no amor.

E assim, o menino que deveria desaparecer virou memória, raiz, futuro.

Porque há destinos que nem a escravidão consegue apagar.

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