Mandou a escrava desaparecer com o que nasceu mais escuro… “Pode sumir com ele. Eu pari, mas ele não é meu filho.”

Mandou a escrava desaparecer com o que nasceu mais escuro… “Pode sumir com ele. Eu pari, mas ele não é meu filho.”

Pouco depois, o coronel saiu do quarto, o rosto endurecido.

— Que ninguém fale desta noite — ordenou.
— Aqui nasceram dois filhos meus. Dois.

Ele olhou em volta, e seus olhos demoraram um segundo a mais do que o normal na porta da despensa.
Benedita prendeu a respiração.

— Benedita — chamou.

As pernas quase não obedeceram, mas ela saiu.

— Sim, meu senhor.

Ele a examinou como quem avalia um animal.

— Onde você estava?

— Preparando água quente… pra parteira.

O coronel assentiu lentamente.

— Hoje você não vai ao rio. Fique por aqui. Sua senhora pode precisar de você.

Virou as costas e saiu.

Benedita sentiu o ar voltar aos pulmões, mas o alívio durou pouco.
A imagem do bebê abandonado a atingiu com força renovada.

Ele choraria?
Estaria com frio?
Ainda estaria vivo?

Naquela manhã, enquanto o sol subia sobre os cafezais, Benedita tomou uma decisão.

A fazenda Santa Eulália despertou em sua rotina brutal: o apito do feitor, os gritos, o estalo dos chicotes marcando o ritmo do trabalho. Benedita caminhava como uma sombra entre panelas e fogões, mas sua mente estava longe, na mata.

Ao cair da tarde, uma tempestade começou a se formar. O céu escureceu de repente, e o vento trouxe o cheiro metálico da chuva.

— Hoje ninguém sai — ordenou o feitor. — Com chuva, o mato fica traiçoeiro.

Benedita abaixou a cabeça.
Por dentro, o coração se partia.

Naquela noite, enquanto a fazenda dormia, o choro voltou a persegui-la.
Não vinha da mata — vinha da memória.

Ela não aguentou mais.

Esperou o guarda adormecer junto ao portão. Pegou uma manta velha, um pouco de fubá escondido num pano e saiu descalça, outra vez, rumo à escuridão.

A chuva já caía forte.

Cada passo era um risco. Galhos lhe rasgavam a pele, o barro grudava nas pernas, mas ela seguiu. Caminhou guiada pela lembrança, pela dor.

Quando chegou à clareira, o coração quase parou.

A tapera estava silenciosa.

— Meu Deus… — sussurrou.

Entrou correndo.

O bebê estava lá.

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