Mandou a escrava desaparecer com o que nasceu mais escuro… “Pode sumir com ele. Eu pari, mas ele não é meu filho.”

Mandou a escrava desaparecer com o que nasceu mais escuro… “Pode sumir com ele. Eu pari, mas ele não é meu filho.”

O menino tinha a pele morena — diferente dos irmãos de pele clara.
O coronel Tertuliano Cavalcante não podia desconfiar.

A fazenda dormia sob a luz da lua.

Benedita cruzou o terreiro de café com o bebê nos braços.
Os pés descalços afundavam na terra vermelha.
O vento frio atravessava seu vestido de chita rasgado.

Olhou para trás.

A casa-grande, iluminada.
A senzala, silenciosa.

Sua própria filha, de seis anos, dormia ali.

— Me perdoa, meu Deus… — sussurrou.

Apertou o bebê contra o peito.
O choro suave dele se misturou ao canto dos grilos.

Benedita sabia:
se voltasse com aquela criança, apanharia até morrer.
Se obedecesse, carregaria esse peso na alma.

Caminhou por horas, até alcançar os limites da fazenda.

Ali começava a mata fechada.

Num clareira escondida, havia uma tapera abandonada, antigo abrigo de um feitor morto de febre amarela.
As paredes de barro estavam cobertas de musgo.
O telhado de sapê, cheio de buracos.
O chão de terra batida, úmido.

Benedita se ajoelhou.
Deitou o bebê sobre uma manta velha.

Observou o rosto sereno, os lábios rosados.
Dormia, alheio ao destino cruel.

— Você merecia mais, meu filho…

Chorou.
Usou uma palavra que nunca poderia ser verdade.

Algo dentro dela se partiu.

Antes do amanhecer, Benedita voltou à casa-grande pela porta da cozinha.
As mãos tremiam.
O rosto estava marcado por lágrimas secas.

Então ouviu o tropel de cavalos no pátio.

O sangue gelou.

O coronel Tertuliano Cavalcante havia chegado antes do previsto, vindo de São Paulo.

Sua voz grossa ecoava, dando ordens.
Passos pesados na varanda.

— Onde está minha esposa?
— As crianças nasceram?

A ansiedade embriagava suas palavras.

Benedita se escondeu atrás da porta da despensa.
O coração parecia querer sair do peito.

Daquele esconderijo, ouviu o coronel atravessar a casa-grande como um animal inquieto.
As botas batiam no assoalho, cada passo uma ameaça.

— Amélia! — rugiu. — Amélia!

Dona Sebastiana saiu do quarto, as mãos ainda sujas de sangue seco.

— Minha senhora está fraca, coronel. O parto foi difícil.

— E as crianças? — perguntou ele, cravando os olhos nela. — Onde estão meus filhos?

A parteira engoliu em seco.

— Dois meninos fortes. Estão dormindo.

O coronel sorriu, satisfeito.

Dois.
Não três.

Ninguém disse o número ausente.
Mas ele pairava no ar, como um fantasma.

Benedita cerrou os punhos.
As unhas rasgaram a própria palma.

Pensou no corpo quente que deixara horas antes, sozinho, naquela tapera no meio do mato.
Pensou na filha, dormindo na senzala, ainda ignorante da crueldade do mundo.

Do quarto, Amélia gritou:

— Tertuliano! Não deixe ninguém entrar!

Ele entrou mesmo assim.

Benedita ouviu murmúrios.
Depois, um choro agudo.
O choro de um recém-nascido.
Depois outro.

Duas vidas.

E o silêncio da terceira.

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